NFTs e o drible na reprodutibilidade técnica

*Texto originalmente publicado na Revista Ano II: ensaio em 18/06 de 2021. Link: NFTs e o drible na reprodutibilidade técnica | by ano II: ensaio | ano II: ensaio | Jun, 2021 | Medium

Na passagem de 2020 para 2021 o mercado da arte voltou-se para mais uma possibilidade de capitalização das obras. Se antes era difícil para um público não especializado compreender os procedimentos de valoração de obras de arte e seus números expressivos, com a pandemia e a difusão da internet como meio de consumo cultural, consumidores de memes e réplicas vendidas em lojas de 1,99 ouviram pela primeira vez o termo NFT.

Como você deve ter percebido, este texto tem como objetivo simplificar o debate em torno da reprodução de imagens e os mecanismos do mercado da arte para a sua precificação. Deste modo, como todo texto introdutório peço licença aos especialistas para poder utilizar da generalização como um instrumento didático, alertado ao leitor todos os riscos de um olhar não especializado, porém, que busca solucionar a linguagem decifrada que permanece nas bolhas da internet.

NFT é uma sigla para “Non-fungible Token” (“Token não-fungível”). Primeiro precisamos entender o que são os bens fungíveis e não fungíveis. Na seção III do Código Civil temos especificações do que são bens fungíveis. A fungibilidade é um atributo dos bens que podem ser substituíveis, trocados por outros que possuam equivalência. Logo, os itens não-fungíveis são aqueles que são únicos e que não podem ser trocados por um equivalente. Dito de outro modo, meu notebook é um item fungível, já que posso trocá-lo em uma loja por um semelhante, ou por uma quantia em dinheiro que seja condizente ao seu valor material e aos custos estipulados pelo mercado. Como bens não-fungíveis temos as obras de arte que por vezes tinham como características sua originalidade e unidade, não podendo ser substituídas por outras obras. Possuir a exclusividade de uma obra criada por uma artista renomada atrai os colecionadores. Sabemos que quando a oferta é menor, maior será o valor do produto e isso explica em preços exorbitantes sobre as obras de arte.

Não posso deixar de acentuar ao leitor que o paradigma da arte produzida a partir da Arte Moderna é muito distante de seus movimentos predecessores. Com a fotografia, o cinema e as duas Guerras Mundiais, o funcionamento da arte passou por transformações que impactaram na sua produção, reprodução e consumo.

Benjamin no ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica [1] tinha como investigação os novos meios de composição, reprodução e divulgação das artes, que com os avanços inegáveis da técnica, a difusão da fotografia e a popularização do cinema, germinaram uma fissura com a tradição artística e os elementos preservados na imagem, como a presença de uma aura, assegurada pelo culto, pelos mistérios de uma arte que poucos tinham acesso e pela singularidade da obra. Com o avanço da técnica e a reprodutibilidade que se mostra intrínseca à fotografia, a era das imagens reclusas, místicas e inalcançáveis chegara ao fim, permitindo que a arte alcançasse um lugar comum, produzida não mais pela imitação da natureza ou dos modelos dos renascentistas, mas entendiam que a imagem deixava de ser única para assumir a multiplicidade.

O tradutor e crítico literário Márcio Seligmann-Silva (2018, Mobi, Tamanho 3, posição 703) explica que uma das possíveis influências que atuaram sobre o conceito de reprodutibilidade defendido por Benjamin foi a publicação em 31 de julho 1931 na revista Lirerarische Welt [Mundo literário] de um debate entre o editor Willy Haas e o pintor Fritz Pollak. O pintor criticava os novos rumos das artes, condenando a reprodução das obras, enquanto que o editor defendia. Para Haas, o conceito de original era inutilizável e não possuía uma função social, indicando que era insustentável imaginar que a função de uma obra original é permanecer em um museu.

Se a obra de arte perde sua aura ou não possui mais a função de dois séculos atrás não é papel deste ensaio responder. Convém dizer que as mudanças apontadas por Benjamin, tal como a reprodução das obras de arte foram absorvidas pela arte contemporânea e o próprio conceito de arte modificou-se ao termos objetos manufaturados sendo expostos em galerias. Outro exemplo é a Pop Art que não só levou objetos da cultura de pop, como reservou um lugar de destaque para a sua reprodução. Com a popularização da internet, a cripto art (veja exemplo em: CRYPTOART https://cryptoart.ai/gallery) passou a ser uma alternativa para os artistas. Consequentemente, as barreiras que antes definiam e caracterizavam o que era uma obra de arte (como seu aspecto físico que ocupava apenas um espaço e tempo) tornaram-se fluidas e o mercado da arte como um bom sobrevivente à crises, metamorfoseia-se de acordo com as novas conceituações, mantendo a sua existência e gerando lucro.

Nesse sentido, nas últimas décadas os colecionadores procuraram maneiras de possuir um acervo de obras e as NFTs parecem ser o recurso do momento. Quando falamos de NFTs, estamos dizendo que se trata de um certificado digital com base em tecnologia que armazena uma assinatura digital chamada de hash para a criação de blocos de dados que serão impressos no produto. Essa tecnologia é chamada de Blockchain que em conjunto com essa impressão biométrica, a criptografia contida no hash, garante que as informações desses blocos não foram violadas. O Blockchain preserva a originalidade, unicidade ou exclusividade do produto adquirido e a segurança em algumas transações realizadas com criptomoedas (Bitcoin, a Litecoin ou Ethereum), mas que com a visibilidade do último ano passou a englobar também o cartão de crédito.

Esse tipo de tecnologia era comumente utilizada para resguardar a propriedade intelectual dos jogos online ou de acervos virtuais, contudo os músicos e os artistas visuais buscam garantir que suas obras sejam únicas por meio de NFTs, podendo comercializá-las. Na prática qualquer mídia digital — um GIF ou JPEG, fotos, vídeos, áudios, podem receber um certificado NFT, que licencia o comprador que poderá reproduzir o produto em exposições ou nas redes sociais sem ferir os direitos autorais.

Parece-me que essa é mais uma tentativa do mercado artístico em retornar à ideia de uma obra singular com valores inestimáveis. Observa-se uma ilusão de que deste modo, artistas com pouca visibilidade poderiam participar do mercado da arte de modo igualitário com artistas já consagrados, afinal, “a internet é para todos”. A grosso modo, as NFTs burlam as vantagens apontadas por Benjamin com o seu conceito de reprodutibilidade técnica e buscam o retorno do culto seletivo de imagens. A posse do código para quem pagar mais, o regozijo da unicidade.

Se esse mercado tinha como proposta favorecer a diversidade de artistas, percebe-se que as bolhas particulares e as grandes galerias permanecem com os mesmos interesses. Consequentemente, os grandes leilões limitam-se à regra: o favorecimento de artistas brancos, norte-americanos ou europeus.

Notas:

[1] Uso a edição organizada e prefaciada por Márcio Seligmann-Silva, publicada pela L&PM, 2018.

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