“Sentimento oceânico” no azul turquesa

Texto publicado na Revista Ano I: ensaios, em 15 de outubro, 2020.

Às vezes quando fecho meus olhos consigo recordar pequenos detalhes de um tempo que se foi, como a vez em que afundei-me no mar, deixando que as águas quentes da ilha de Itaparica me ninassem. Naquele pedaço de mar de um azul turquesa, desprendi-me de tudo o que acontecia ao redor para ouvir o encontro das pequenas ondas com meu corpo que paralelamente acompanhava os movimentos. Naquele momento eu sabia que estava sendo presenteada com a eternidade do segundo.

Não sei quanto tempo fiquei contemplando o azul do céu enquanto sentia o sal das águas enrijecer minha pele, muito menos há quantos anos tive essa experiência, pois ela se apresenta em minha memória de modo vívido, fazendo com que poucas lembranças me aproximem da mesma sensação. Assim, confesso que busco a mesma experiência em situações que me levam a esse sentimento: a sensação de completude.

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Mayã Fernandes, “Sentimento oceânico” (2020). Acrílica sobre papel, 21 cm x 29,7cm.

O filósofo Pierre Hadot, em sua entrevista registrada na obra Filosofia como maneira de viver¹ vai desenvolver essa sensação de completude por meio do conceito de “sentimento oceânico”, em que o filósofo entrelaça o conceito com os aprendizados da filosofia antiga dos estoicos, dos neoplatônicos, sobretudo de Plotino, e com o olhar dos pintores modernos ao contemplarem a natureza fora do ateliê. Esse sentimento indica a fratura com a individualidade e a consciência de participação no Todo, de uma unidade com o que conhecemos como humanidade e com o mundo ao nosso redor.

A experiência que tive pode ser comparada à mística de Plotino, que é exatamente esse instante em que os humanos sentem o acolhimento do mundo, principalmente ao desfazer-se das coisas supérfluas. É a valorização do instante. Jeannie Carlier vai dizer-nos que

O “sentimento oceânico” é a fina ponta do que Pierre Hadot denomina consciência cósmica; experimentar a importância do instante presente — único tempo e único lugar sobre o qual temos poder na imensidão dos tempos e dos espaços de que somos uma parte — é viver cada hora como se fosse a última, mas também a primeira, como se olhássemos este mundo “ingenuamente” pela primeira vez².

Para Hadot³, empenhar-se em ver o mundo como se fosse a primeira vez é um exercício de desprender-se às amarradas do olhar convencional, é recuperar a visão da imensidão do mundo que nos escapa. É constatar a existência do mundo e compreender a nossa própria existência diante do que nos é maior.

Quando formei-me em filosofia em meados de 2017, entendi que a filosofia era um exercício para aprender a morrer. Na época foram tantas perdas, que, paralisada, encontrei forças nos ensinamentos da filosofia antiga para continuar vivendo. No fundo, os filósofos da antiguidade não desprezavam a vida, como sugere Nietzsche em Crepúsculo dos ídolos⁴, mas a valorizavam de modo diferente do que conhecemos hoje ou há séculos atrás. Assim, esse exercício de observar o mundo pode levar-nos a entendermos melhor a nossa própria existência.

Recentemente reencontrei o “sentimento oceânico” sendo vivenciado por um personagem ao assistir um episódio intitulado Zima Blue, da série original da Netflix: Love, Death and Robots (2019). O episódio nos conta uma história de obsessão de um artista chamado Zima Blue. Suas pinturas eram formas geométrica tingida de um azul turquesa. Aos poucos o artista apresenta suas obras ao público, variando em pequenas e grandes dimensões. Tais obras passaram a ser observadas inicialmente com curiosidade e espanto. Afinal, qual a funcionalidade, o questionamento de um quadrado azul? Aos poucos Zima Blue ficou famoso e suas obras adquiriram preços astronômicos, podendo expor suas obras em todas as regiões do mundo e fora dele, como também pinta os anéis de Saturno.

Um dos momentos mais significativos da narrativa é quando o artista revela a sua origem para uma jornalista. Ele que é visto como um humano que recorreu a mudanças corporais significativas que lhe transformaram em um humano com aspectos de ciborgue, explica que na verdade sempre foi um robô, mas que assumiu forçadamente ao longo dos anos características humanas. Em sua origem, Zima Blue era uma máquina de limpar piscinas, equipamento pequeno, que tinha apenas um propósito. Com o tempo, os humanos foram dando-lhe formas humanóides, que criam novos desejos e perspectiva de vida para o robô.

A carreira de Zima Blue termina com o último ato. Os espectadores observam uma piscina retangular, daquelas de clube dos anos 90, revestidas com pequenas cerâmicas azuis de 10cmx10cm. O artista posiciona-se na ponta da piscina e diz:

Vou emergir. E, enquanto isso, desligarei aos poucos minhas funções cerebrais elevadas. Desfazendo-me. Deixando apenas o necessário para apreciar o que há ao meu redor. Para extrair o simples prazer de realizar uma tarefa bem feita. Minha busca pela verdade acabou. Vou para casa⁵.

Durante seu nado na piscina com cerâmicas azul turquesa, Zima Blue vai desfazendo-se de todas as peças que lhe foram inseridas com o tempo, aquelas que lhe garantiam feições humanas. O assombro do público em presenciar a morte do artista, ofusca o entendimento do propósito da performance. Como ele pode renunciar ao que era? Como ele pode transformar-se em uma máquina que limpa os revestimentos da piscina?

Zima Blue não só compreende a expressão “aprender a morrer” que experimenta, naquele instante enquanto mergulha de um lado para o outro, do “sentimento oceânico” de poder fazer parte da simplicidade, de conhecer a si e o seu papel diante do mundo em sua volta. Zima continua vivendo como era em sua origem, compreendendo agora a sua obsessão pela cor azul turquesa. O polimento da cerâmica da piscina era sua origem e o motivo de sua arte.

O que me impressiona em Zima Blue perpassa pela compreensão de libertar-se do que é supérfluo e de todas as necessidades impostas pela contemporaneidade. Fiquei durante meses pensando se Zima Blue poderia encaixar-se nos ensinamentos da antiguidade, talvez experienciando o mínimo necessário para viver que Plotino diz ser preciso para conhecer a si e ao mundo, “retirar o que lhe é alheio para poder resplandecer a verdadeira beleza”⁶. Esse desprender-se pode levar ao “sentimento oceânico”. Para mim é evidente que toda a história de Zima Blue é uma metáfora sobre nossa própria existência e sobre a necessidade de reavaliarmos nossos desejos. Para mim a piscina pode ser identificada como o mar, que para nós, assim como para o artista, pode ser um caminho de unidade com o que há de mais primordial no mundo.

A experiência do mar é global demais, mística demais para poder ser reduzida a uma relação interindividual…Existe uma diferença essencial entre uma relação interindividual situada num espaço cultural e aquilo que se experimenta quando se está sozinho, no mar, em uma bela noite estrelada, maravilhado pelo esplendor e pela imensidão do cosmos, com o sentimento de ser inteiramente engolfado por esse espaço global, sem nada poder fazer exceto participar dele, e as palavras jamais serão capazes de descrever isso… No mar, já não sou eu mesmo, sou o Cosmos⁷.

Enquanto olhava Zima desfazer-se e retornar para sua origem, encontrei o mesmo azul turquesa que tenho em minha memória do céu de Itaparica. Aquele mesmo instante que preencheu-me anos atrás, voltou como em ondas e ao fechar os olhos pude sentir o cheiro da maresia. Desde então venho pensando sobre como a imensidão do mar nos é um enigma e aproxima-nos do que é o mundo. Ao envolver-nos, não mais temos o controle sobre nosso próprio corpo diante de sua imprevisibilidade.

Desde minha adolescência aprendi a respeitar o mar, a observá-lo nas noites de lua cheia e a não buscar entender o escuro de seu horizonte, pois a presença que sinto ao contemplar sua imensidão nenhum método cartesiano ou sistema filosófico conseguirá explicar. Permito-me, apenas, vivenciar cada instante diante da abundância que me apresenta e que mesmo assim resguarda-se em segredos que nunca compreenderei.

Notas:

¹ (HADOT, 2016, p. 215).

² (HADOT, 2016, p. 21).

³ (HADOT, 2016, p. 13).

⁴ (NIETZSCHE, 2017, p. 15).

⁵ Diálogo final do episódio “Zima Blue”. Mais informações sobre a série, acessar https://love-death-and-robots.com/

⁶ (PLOTINO, I. 6 [1], 8).

⁷ (LABORIT apud HADOT, 2016, p. 222).

Referências Bibliográficas

HADOT, Pierre. A Filosofia como maneira de viver: Entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. São Paulo: É Realizações, 2016.

PLOTINUS. The Enneads. Edited by Lloyd P. Gerson. Londres: Cambridge University, 2018.

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofar com o martelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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