A magia das imagens técnicas na criação de novas narrativas

Publicado originalmente na Revista Ano I: Ensaio, em 17/09

Este ensaio surge a partir de reflexões filosóficas resultantes do curso de Filosofia da Fotografia I, lecionado em maio de 2020. Em uma das aulas realizamos a leitura de duas imagens. A primeira era utilizada como panfleto convocatório de um determinado grupo político e a segunda uma pintura que busca questionar a sedução e o poder de magia das imagens técnicas. A análise de ambas imagens foi praticada com base nas obras Ensaio sobre fotografia (1998) e Universo das imagens técnicas (2008) de Vilém Flusser.

A primeira imagem é um cartaz distribuído em 1932 por um grupo que intitulavam-se M.M.D.C (acrônimo que representa os mártires do Movimento constitucionalista de 1932).

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M.M.D.C. Você tem um dever a cumprir, consulte a sua consciência! (1932).

A narrativa por trás do cartaz remonta às práticas adotadas pela organização civil paramilitar criada em São Paulo em 1932. A imagem em tom panfletário surge como reação às medidas autoritárias tomadas pelo presidente Getúlio Vargas em 1932, ao anular a constituição de 1891 que limitava seus poderes de decisão sobre os governadores dos estados. Sem a vigência dessa constituição, Vargas passou a nomear os cargos dos governadores, inserindo seus aliados políticos para obter controle político, social e econômico sobre os estados. Essa medida desagradou a oligarquia paulista, que incitou grupos de civis e militares para reagir de modo armado contra o governo. Assim, o grupo M.M.D.C., passou a realizar convocatórias para que a população se unisse e lutasse ativamente no confronto. A chamada culminou na Revolução Constitucionalista, que eclodiu no mesmo ano.

Com o auxílio da Liga das Senhoras Católicas, a organização [M.M.D.C] criou serviços de alistamento, de instrução, de abastecimento, de concentração e de alojamento de voluntários, bem como de assistência às suas famílias. Desenvolveu também serviços técnicos de organização e controle. Além de atuar nesses diferentes setores, o M.M.D.C. promoveu as chamadas “caravanas de propaganda cívica”, que incluíam a pregação diária nas ruas e a divulgação de cartazes e de filmes¹.

Essa imagem foi reproduzida e distribuída em São Paulo. “Você tem um dever a cumprir, consulte a sua consciência!”. o apelo da mensagem é coercitivo e embasa-se em um molde propagandístico perpetuado na história, sendo evidente a apropriação das artes para alcançar os cidadãos paulistanos. Essas “pregações” são feitas em paralelo com a própria propaganda política praticada por países como Estados Unidos, ao solicitar que a população aprovasse e participasse ativamente das investidas imperialistas.

No cartaz, observo a utilização da imagem de uma mescla do homem civil-militar, que coloca-se em defesa de uma causa revelada pela bandeira ao fundo. O olhar fixo mostra-nos o discurso direto estabelecido entre esse homem e seu público, que encaixa-se com o gesto de sua mão que indica ao espectador que ele é, sem dúvidas, o receptor da mensagem.

Associamos a imagem e seus elementos com outros significados que permanecem no imaginário comum. Não precisamos entender de semiótica ou ter um estudo aprofundado de estética, para perceber o teor do cartaz. A captura das pessoas é garantida. O cartaz funciona como uma isca. Temos então o efeito da propaganda.

Em outros ensaios² comentei sobre a expressão máxima das imagens técnicas serem as fotografias. Elas são, sem dúvidas, o ápice dos procedimentos técnicos para a criação de imagens. Contudo, não podemos esquecer que uma imagem técnica pode ser toda representação efetuada por meio de intervenções mecânicas, que buscam diminuir a atuação das pessoas no processo de materialização. Assim, podemos citar os jornais e revistas como o resultado do entrelaçamento da imagem com o texto, sendo meio de fácil compartilhamento de informações.

Ainda sobre os estudos da imagem conduzidos por Flusser³, deixa-nos um exame comparativo entre as imagens e as imagens técnicas. Para ele, as imagens são realizadas a partir do processo de abstração do pensamento humano, que depende de uma circunstância palpável para existir, que essas imagens apontam para cenas e sempre carregam consigo, de modo transparente, a visão ideológica da artista. Já as imagens técnicas são compostas por pontos que se concretizam para mostrar-nos uma imagem. Esses pontos são calculados por meio de equações que buscam decifrar o mundo em que vivemos. Acontece que no meio do decifrar, os códigos são manipulados por programas (sociais, políticas e econômicas) que enquadram na imagem o que é de interesse para a existência da própria imagem técnica. O grande trunfo desse tipo de imagem é que elas emulam as imagens tradicionais, escondendo seu funcionamento mecânico e por muito tempo esquecemos que elas de fato não representam o real, mas uma cena criada pelo aparelho.

Assim, a proliferação das imagens técnicas diluiu a magia presente nas imagens tradicionais, como a pintura, que serviam de culto, vinculando-se aos rituais. Sabe-se que para Flusser a imagem possui uma magia responsável pelo elo entre as pessoas e o mundo. Flusser comenta que no período pré-histórico as imagens serviam de mapas para ler o mundo⁴. Porém, com o tempo, as pessoas passam a não mais utilizar a função imagética como um guia para o conhecimento, mas idolatram as imagens como possuindo uma finalidade em si mesma. Parece-me que a idolatria, conforme o filósofo pontua, levou as imagens ao limite de sua função, desdobrando-se em novas utilidades. Para Flusser, com o nascimento da escrita, temos o texto e a criação de conceitos disputando espaço com as imagens, e em seu limite podemos ver a escrita imagética como o entrelaçamento contínuo entre imagem e texto. Esse período é chamado de histórico, por possuir características lineares, opondo-se à leitura circular das imagens.

Com o surgimento do texto, a imagem mantém-se viva, seja em sua aparência já mencionada, ou como figura de linguagem. A relação entre imagem e texto é feita por meio de conjunções e descontinuidades. Contudo, a fissura que as máquinas causaram em nosso tempo possibilitou ver esse novo mundo na velocidade da captura da objetiva. Segundo Flusser, a era pós-histórica vem para transbordar os limites da historicidade. Estamos no tempo do instantâneo, do imediato. Em constante modificação e reproduções das imagens e de novas tecnologias, seriam os últimos 100 anos um período vivenciado sem a chamada magia?

Seria banal dizermos que as fake news que observamos hoje em nosso cotidiano nasceram a partir de um projeto político da contemporaneidade e do advento da internet. Declaradamente falaciosas, certas imagens adotadas pela propaganda possuem em si a capacidade de cativar o espectador. O lastro histórico da função das imagens não só continua em nosso tempo, como é uma concorrente do poder mágico das imagens produzidas pelos aparelhos. Esse poder dos aparelhos não só mimetiza a magia da tradição, como insere nessas imagens códigos camuflados que são enganosos.


Por mais que existam diferenças técnicas entre imagens e as imagens técnicas, é difícil desvincular de ambas o poder de magia. Retornando à imagem “Você tem um dever a cumprir, consulte a sua consciência!”, compreendo que sua estética está relacionada a uma utilização da arte para fins políticos e econômicos. O cartaz em específico, representa a imagem do “Tio Sam”.

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James Flagg, Eu Quero Você para o Exército dos EUA (1917)

A utilização da propaganda pelos E.U.A não é uma prática nova. A imagem do “Tio Sam” (1870) é um exemplo de como as imagens são utilizadas para manipular uma determinada população. A personificação estadunidense do “Tio Sam”, que décadas depois ganhou os dizeres “”I Want You for U.S. Army” (“Eu Quero Você para o Exército dos EUA”) (1917), tornou-se o símbolo do recrutamento dos soldados americanos para a primeira guerra mundial e garantiu o apoio incondicional da população que passou a simpatizar com a necessidade imperialista de expansão de territórios, sendo essa dedicação superior à própria noção da vida. Em outras palavras, as pessoas voluntariamente colocam-se em situações de risco e ignoram a destruição praticada na guerra. Tudo em nome do patriotismo.

No caso apresentado aos meus alunos no início do curso, a convocatória do M.M.D.C segue a mesma nomenclatura utilizada na Primeira Guerra Mundial com os dizeres de “Tio Sam”. O molde desse tipo de propaganda política é encontrado nos movimentos fascistas da primeira parte do século XX, como o Nazismo e a propaganda produzida pela União Soviética.

No caso do cartaz brasileiro, a apelação a um fator psicologizante dos dizeres “Consulte a sua consciência!” confunde a população e, logo, impedi-la de realizar uma interpretação e conceituação sobre o que é proposto.

Flusser explica que vivemos em um período pós-industrial, em que não sabemos mais se as câmeras são nossos equipamentos que auxiliam no trabalho ou no lazer, ou se somos funcionários dessas câmeras, que trabalham para seus programadores — funcionários que constroem novas programações de acordo com instruções superiores, realizando testes no aparelho para que ele possa atualizar-se. Contudo, a contradição que se impõe é que não sabemos mais se desejamos, agimos e logo, vivemos, de acordo com as indicações e programações realizadas pela máquinas.

Certo dia um amigo me questionou sobre o porquê as pessoas em um casamento não conseguem mais viver a magia do ritual, mas com suas câmeras, registram, filmando, fotografando ou transmitindo ao vivo, como se o próprio evento fosse criado para o ritual do aparelho. As pessoas foram substituídas, não são mais o centro da imagem. Agora, o próprio ato fotográfico é o evento. Meu amigo desconfiou da cena e incrédulo, me contou sua experiência. Ele constatou o sepultamento da imagem tradicional e vivenciou o casamento entre os humanos e os aparelhos — sob a luz da magia da sedução dos programas — no altar religioso que virou mais um acessório no ritual.


A outra imagem que mostrei para os meus alunos é uma pintura , realizada a partir do cartaz político mostrado neste ensaio.

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Anace Lima. Acuse-os do que você faz (2020). Acrílica sobre tela.

A imagem destacada é uma pintura da artista Anace Lima⁵. A imagem “Acuse-os do que você faz”, é uma apropriação do cartaz de convocação do M.M.D.C. e busca distorcer a sua convocatória. Aqui, as pessoas não são mais responsabilizadas pela situação atual e cooptadas a realizar a luta armada. A saída proposta pela arte é de que a população indique os verdadeiros culpados pelos seus atos.

Se observarmos ambas as imagens, a imagem da convocatória do M.M.D.C. e a imagem da artista, fica perceptível a diferença da magia presente. Por mais que a obra da artista também tenha uma frase coercitiva, ela propõe um jogo de evidenciar uma prática das propagandas totalitárias. A artista, assim, indica a necessidade de olhar para suas próprias ações. Deste modo, o poder de sedução da propaganda é reduzida e sua opacidade é evidenciada. Sua pintura transforma a mensagem propagandística em uma imagem transparente, sendo de fácil compreensão a intencionalidade da imagem ao deixar em destaque o inacabado da escrita.

Dado nosso contexto atual, não temos dúvida de que o movimento político e ideológico da pintura da artista nos leva a questionar a situação atual do nosso país. O fundo sem a bandeira denuncia o patriotismo e a desresponsabilização dos grupos políticos sobre seus filiados. Aqui, a prática acusatória não é mais um apelo para própria consciência, mas a expurgação da culpa, a responsabilização de quem agencia indivíduos em busca de seus imbróglios políticos.

A mensagem é literal e direta. A função da imagem é servir como um mapa para ler o mundo. Quem olha para a imagem “Acuse-os do que você faz” não consegue alienar-se no loop das imagens técnicas. O rastro que a artista imprime sobre a imagem quebra a sedução. A correção da figura que pode ser interpretada como um erro, ou o movimento incompleto do quadro, permite-nos questionar a imagem. Contudo, o elo estabelecido entre a representação e o momento político atual, força-nos a rever a conjuntura atual do nosso país.

O fator mágico dessa pintura faz sentido para mim e acredito que para uma grande parcela que não é condizente com as práticas do governo atual e que foi responsabilizada pelos erros dos outros. Essa magia presente na imagem que é inacabada propositalmente, projeta-se em nossa mente e necessita de reflexão. Aqui, não existe o tempo do instantâneo, nem a ação impensada sob a prática coercitiva. A reflexão surge a partir do olhar que levamos para a imagem em conjunto com nossos conhecimentos adquiridos, que requerem a criação de novos conceitos.

Por fim, o poder de sedução das imagens técnicas pode, inclusive, fazer-nos recuar diante da pintura, que pode possuir o olhar aguçado que consegue diferenciar uma imagem da outra. Essas artistas rompem não só com a lógica dos programas, como também rasgam as imagens técnicas, distorcem as funcionalidades dos aparelhos, enquadram novos olhares e zombam dos processos de captura de subjetividade realizadas pelos movimentos imperialistas. É na prática dessas artistas que conseguimos ver e questionar o mundo atual para criar possibilidades de existência das imagens e da própria narrativa.

Notas

¹ CALICCHIO, Vera.«Verbete MMDC». Rio de Janeiro: FGV-CPDOC. Consultado em 03 de setembro de 2020. Disponível em: https://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/mmdc

² FERNANDES, Mayã. A legitimidade programada da Fotografia-documento. Revista Ano I: Ensaio, 2020. ISSN 2675–5599 Disponível em: https://medium.com/ano-i-ensaio/a-legitimidade-programada-da-fotografia-documento-124c36e672cf

³ FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008, p. 15.

⁴ FLUSSER, Vilém. Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio d’agua editores, 1998, p. 30.

⁵ Para ver mais sobre o trabalho da artista, acesse o seu site pessoal disponível em: www.anacelima.com.br

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