A legitimidade programada da Fotografia-documento

*Ensaio publicado pela Revista Ano I: Ensaio, Agosto – vol. 1, nº 7, 2020

Eram meados de 2014 quando fui autenticar um documento no cartório. Tratava-se de uma procuração formada por imagem e texto, que vinha do sul do país. O funcionário do cartório, rigorosamente, comparava a assinatura do tabelião que constava no fim do documento, com a sua base de dados, que em teoria, deveria ter a assinatura idêntica. Depois de 30 minutos de espera, ele, sem graça, me responde que não poderia autenticar, pois as assinaturas eram diferentes. Tentei usar um jeitinho, dialoguei, mas não teve jeito. O documento não tinha validade. Foi preciso ligar para o cartório no sul, mover pessoas para darem entrada novamente na documentação, esperar pelo correio e só então voltar para autenticar uma nova assinatura.

Era óbvio para mim que as assinaturas divergentes vinham da mesma pessoa. Todos sabem que somos seres mutáveis e que ao longo dos anos trocamos de cabelo, de nome, de endereço e inclusive de assinatura. O que me deixou intrigada na história foi a rigidez com que os funcionários observavam a veracidade do documento, comparando o papel com a imagem da assinatura na base de dados.

O documento autenticado, seja texto ou fotografia-documento⒈, devem possuir como característica a transparência, que segundo André Rouillé⒉ é quando torna-se possível atravessar a imagem, ver através dela o seu referente, para que sua veracidade seja comprovada e perseguida pela continuidade física. Esse documento é tratado como prova de que um evento aconteceu, por isso é transparente, pois precisa fazer com que o sujeito olhe para o documento e veja o seu referente. Essa transparência reforça o seu funcionamento como índice ao entender que a foto representa o que já foi, um evento, o rastro de uma situação⒊ Dito de outro modo, ao olhar o documento com a assinatura, qualquer pessoa entende que foi certificada a sua veracidade, pois é entendida como a prova de que alguém com autoridade o legitimou.

O que aconteceu com o funcionário foi algo curioso. O que garantia a veracidade do documento era a autenticação. A combinação de ambas as assinaturas, como se fossem gêmeas, saídas do mesmo lugar. Para tanto, o conteúdo do documento, seja ele fotográfico ou de outra espécie, não importava. O essencial era a transparência dos papéis, a sua função de índice, a que ligava a assinatura ao seu criador e a fotografia-documento era o resultado objetivo desse processo.

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Crédito: Catraca livre. “Bilhete de criança se passando por professora vira assunto nas redes sociais”

I.

Na atualidade aparelhos como smartphone ou uma câmera fotográfica tornaram-se populares. O filósofo Vilém Flusser mostra-nos que a estrutura de nossa sociedade após a revolução industrial foi modificada e passa a seguir o seguinte modelo: temos as imagens técnicas, os aparelhos, os funcionários e os programas. Simplificando, as imagens técnicas são todas as imagens produzidas pela intervenção de uma máquina. Os programas são códigos, leis e dados que regem uma estrutura, podendo ser ela social, política ou econômica. Os aparelhos são máquinas, como é o caso da sua máquina fotográfica ou smartphone, que são ferramentas dos programas. Essa estrutura composta por imagens técnicas, aparelhos e funcionários, dialogam entre si com a finalidade de resguardar e perpetuar a vida dos programas. Deste modo, nossa sociedade adapta-se aos regimes de verdade que garantem a legitimidade da própria estrutura. Em conversa com Anace Lima, multiartista e pesquisadora de filosofia da arte, ela comenta que a cédula de dinheiro é o exemplo simbólico do poder social, político e econômico que inserimos em um pedaço de papel. Em suma, criamos documentos, uma estrutura para legitimá-lo, como o Banco Central, e depois vivemos para sustentar a existência desse mesmo programa. Talvez essa seja a melhor definição para a expressão “rato na roda”, em que giramos, corremos e perseguimos algo que não nos propõe uma mudança significativa.

As imagens técnicas, como diria Flusser⒋ ao definir uma fotografia, são produzidas e compartilhadas em nossa sociedade de modo frenético, em que a tendência é a obsolescência da escrita em prol das imagens fotográficas. Flusser⒌ também alertava sobre os funcionamentos dos programas. Eles buscam sua imortalidade e fortalecem sua programação, transformando-as em mutáveis e sensíveis aos humanos para poderem adaptar-se e garantirem a sua sobrevivência. Por meio dos aparelhos, os programas chegam até os funcionários. As pessoas são funcionários quando colaboram com a perpetuação dos aparelhos e dos programas, seja por meio da utilização dos aparelhos e de seus produtos, ou pelo não questionamento dos programas vigentes.

A aplicação dessa teoria observa-se no desencontro causado pelo tabelião do sul, que evidenciou uma fissura na regra causada pela subjetividade humana. Consequentemente, a objetividade da fotografia-documento e dos programas que garantem a sua legitimidade foi exposta, entregando que o documento não é transparente. A opacidade da fotografia-documento faz parte de um programa, que reafirma a sua própria validade. Essa constatação desmancha a certeza que sempre tivemos: a imagem fotográfica não é essencialmente uma verdade.

II

Existe o entendimento de que a veracidade do documento depende de uma estrutura externa. Na prática é o fulano que possui a autoridade para justificar a legitimidade de alguns papéis. Para Flusser, o capitalismo, a cultura ocidental e seus modos de espoliação, apropriação e subjugação de outros povos, fazem parte do funcionamento dos programas, que infelizmente, são colocados em prática a todo momento, inclusive, enquanto escrevo este ensaio. Flusser comenta que o projeto do Ocidente, de modo geral, consiste na “reificação derradeira de pessoas em objetos informes, em cinza. A tendência ocidental rumo à objetivação foi finalmente realizada, e o foi em forma de aparelho”⒍. Assim, a fotografia-documento, que possui como intenção o registro objetivo do que aconteceu, pode corroborar na sustentação de uma ordem social, política e cultural vigente em nossa sociedade.

A questão que me intriga é por qual motivo algumas pessoas defenderem ferrenhamente a veracidade da fotografia-documento. Na busca por relacionar a imagem com aquilo que nossos sentidos nos apresentam, é frustrante entender que a veracidade da foto não é uma característica intrínseca do objeto. Para o filósofo André Rouillé⒎

[a verdade da fotografia] certamente se sustenta no fato de que a fotografia aperfeiçoa, racionaliza e mecaniza a organização imposta ao Ocidente a partir do século XV: a forma simbólica da perspectiva, o hábito perceptivo que ela suscita, e o dispositivo da câmera obscura. A perspectiva é uma organização fictícia, imaginária, reputada por imitar a percepção; a imagem em perspectiva traduz a prosa do mundo na língua estrangeira de um enquadramento codificado, convencional. O hábito perceptivo que se desenvolveu com a imagem em perspectiva não é contestado na metade do século XIX pela fotografia; ao contrário, ela é sistematizada pela óptica e pelo emprego da câmera oscura, que anteriormente era apenas uma acessório facultativo na panóplia dos pintores.

É engraçado perceber a reação das pessoas quando dizemos que uma fotografia-documento é uma mentira. Em parte, entendo que a revolta contra a falsidade da imagem aconteça por não querermos acreditar que nossos sentidos podem ser enganosos e que o evento demonstrado pela foto não é condizente com a realidade fotografada. A linguagem conceitual também não ajuda, pois ao nomear um pedaço da câmera como “objetiva”, esquecemos que a conceituação pode ser realizada por meio convenções e nenhum paradigma⒏ é imune à crítica. A revolta contra o rompimento de paradigmas é similar a situação dos moradores da caverna de Platão⒐, que no auge do mito, cogitaram matar o companheiro que pretendia mostrar a mentira das imagens projetadas nas paredes da caverna.

Quem diria que uma máquina capaz de simular a nossa visão por meio de efeitos químicos e físicos, seria capaz de distorcer e de criar novas realidades? Pois bem, a confusão é longa, o debate acadêmico é insaciável e envolve não só as capacidades da câmera obscura, mas dos nossos próprios sentidos. Porém, parece-me que o estranhamento de entender a fotografia-documento como uma mentira é justamente compreender os mecanismos que a legitimam.

Ao questionar as regras que formulam a veracidade de uma fotografia, nos aproximamos da objetividade, que em última instância é criada e justificada por programas. No exemplo do cartório fica evidente a falha na ideia de objetividade, mostrando que a garantia da verdade está no aferimento do funcionário, leia-se sujeito subjetivo, que carimba o papel.

O ocultamento dos critérios que legitimam uma imagem e a transformam em documentos, precisa ser mantido para que programa esteja a salvo. Para tanto, confia-se na destreza da máquina, uma câmera obscura, criada por humanos. Por mais estranho que possa parecer, a verdade para a fotografia-documento é forjada com o apelo a convicção do espectador, pois a fotografia precisa menos de semelhança ou de exatidão do que de convicção. Um exemplo disso é a certeza criada pela representação objetiva da imagem com o advento da perspectiva. Se a perspectiva é uma criação que possui o intuito de organizar e assemelhar-se ao funcionamento de nossa percepção, não podemos dizer que as imagens, sobretudo as fotografias, são imagens verdadeiras por si só.

III

Mayã Fernandes. Quando era família de um só. 2020.
Créditos: Mayã Fernandes. Quando era família de um só. 2020.

A ideia dessa discussão é fazer com que exista a desconfiança sobre a objetividade da fotografia-documento. Se pensarmos que essas imagens são utilizadas como provas de um crime, ou como registros históricos, é preciso investigar o conteúdo da imagem, o contexto na qual ela foi realizada, a legenda que a acompanha. A partir disso é preciso entender que uma foto é uma representação orientada por um programa. A objetividade é como um disfarce para a criação de universalidades, que por vezes, se mostram inatingíveis e inquestionáveis.

A saída não é ignorar os sistemas institucionais que garantem a legitimidade da fotografia-documento ou pensar que nosso álbum de família não possui valor afetivo. Evidencia-se essa estrutura para que não sejamos ingênuos em acreditar que as imagens são neutras. Esse entendimento nos liberta das amarras das fake news e permite que as imagens fotográficas sejam livres para alcançar outros formatos e encontrem novos problemas.

Sobre a situação do cartório que contei no início deste ensaio, após conseguir autenticar uma nova procuração, que aliás, estava com uma terceira possibilidade de assinatura do tabelião do sul, ainda tive que lidar com a burocracia do sistema bancário para comprovar, e claro, convencer, que eu era a pessoa representada na foto 3×4 da carteira de identidade tirada há 16 anos atrás. No fim, à contragosto, fui certificada de que minha foto era verdadeira.

Notas

⒈ Neste ensaio entendo a fotografia-documento com a função documental de inserção institucional do registro. Assim, é possível registrar por meio da fotografia sem necessariamente submeter à instituição. Para ver mais sobre o tema, indico o artigo Rodrigues, B. C.; Crippa, G. Registro/documento: fotografia na obra de arte contemporânea. Transinformação, v. 30, n. 1, p. 15–26, 2018.

⒉ROUILLÉ, André. A fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Editora SENAC, 2009, p. 66.

⒊Índice como rastro, ver PEIRCE, Charles. Écrits sur le signe. Paris: Seuil, 1978.

⒋FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

⒌FLUSSER, Vilém. Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. Lisboa: EUROPEAN PHOTOGRAPHY Andreas Müller-Pohle,1983.

⒍FlUSSER, Vilém. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Duas Cidades, 1983.

⒎ROUILLÉ, André. A fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Editora SENAC, 2009, p. 65.

⒏KUHN, Thomas. A estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1998.

⒐PLATÃO. A República, livro VII, 517 a-c. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017.

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