Entre a denúncia e o sadismo: a estetização da violência

Publicado pela Revista Ano I: Ensaio, 13/07/2020

*Aviso de gatilho: o texto trata de violência por meio das imagens, racismo e fascismo *

Do alto da sacada observei o andar das pessoas na rua. Parte delas caminhava em um ritmo acelerado, evidenciando o receio de sair de casa em meio a uma pandemia sem precedentes no Brasil. Por um breve momento a calçada ficou vazia. Um homem branco, que deveria ter 35 anos, parou próximo à lixeira, retirou sua máscara, tossiu, escarrou e logo depois colocou a máscara e seguiu seu caminho. 

Essa cena, impossível de ser ignorada, não saiu da minha cabeça. No mesmo momento lembrei da quantidade de pessoas que passam por aquela calçada, que vasculham o lixo e que trabalham recolhendo ou organizando o lixo. Pensei na quantidade de pessoas que estavam morrendo no Brasil, nas covas sendo preenchidas por pessoas e na incapacidade de muitas pessoas de vivenciarem o luto. O que faz uma pessoa realizar tal ato hediondo? Por que o homem, ao achar que não estava sendo observado, intencionalmente desconsiderou que poderia contaminar a rua? Será que ele contaminou alguma pessoa? Diante essa situação, esse homem branco  não percebe-se como mortal? 

O homem que retira a máscara demonstra um descolamento da realidade, esse que pode ser agravado por uma quantidade de privilégios de gênero e de raça, que fazem com que homens brancos sintam-se imortais, desenvolvendo novas categorias e definições do que é ser humano. Na atitude de ir contra o uso da máscara ou de flexibilizar o uso no momento em que ninguém está vendo, não existe um “herói” e sim a tolice do individualismo. 

A partir disso pensei na guerra e no comportamento dos homens, descrita por Simone Weil[1]. Para ela, em uma situação de violência extrema o herói é a força. Engana-se o homem em achar que vence a violência, pois quando a violência chega ao limite, transforma os humanos em coisas, objetos. Em outras palavras, a força prevalece em situações de violência e transforma os humanos em cadáveres. 

 Como representante imortal dos seres vivos, esse homem não acredita que a violência e que a própria força da natureza possa alcançá-lo. E mais, como participa ativamente das violências institucionais e por meio da própria instituição domina e devasta o meio em que vive. A sua imagem serve como regra que legitima esse tipo de pensamento. Por isso, independente de estar doente, o homem marca a calçada em frente à minha casa, ponto de circulação de muitas pessoas. Isso revela que parte de seu desprezo pela segurança dos outros é por considerar os demais inferiores a si, como seres substituíveis, que podem cuidar individualmente de suas vidas. Ainda podemos pensar no homem branco que cuspiu na rua como um humano que sabe que pode morrer com um vírus qualquer. Não importa se ele estava contaminado e se passou a doença para outras pessoas que transitam pela rua: todos são mortais, logo, a morte é um caminho certo para todos.

O que me chama atenção na ação do homem branco não foi apenas o ato de retirar a máscara, mas de fazer isso quando achava que não estava sendo observado. Existe uma necessidade para pessoas brancas de sustentar um falso moralismo. Por mais que essas pessoas insistam em lutas a favor de direitos humanos, em momentos de crise, sabemos quem na prática   possui prioridade de atendimento e  de viver com  bem-estar. 

Judith Butler nos conta que existem histórias de vida e histórias de morte[2]. Ao propor o conceito de vidas precárias, mostra-nos que existem graus de precariedade, que por mais que todos os seres compartilhem a mortalidade como um fim, algumas pessoas conseguem tornar suas vidas mais confortáveis, menos precárias. Esse movimento acontece, por vezes, em às custas da desestabilização da vida do outro. Nesse sentido, as histórias de vida são responsáveis pelas histórias de morte. Contudo, sabemos que no Brasil muitas pessoas passam por um processo de desumanização devastador, ao ponto de não serem consideradas vidas. Os reflexos da desumanização podem ser encontrados na violência estatal, como a burocratização para reivindicar direitos básicos, como alimentação e moradia. 

Sabemos que a história não é imparcial e que ela é contada por aqueles que pretendem dominar as vidas dos outros. A utilização da força e seus meios de persuasão para a guerra demonstra como a história hegemônica é feita com base na violação dos chamados  “outros povos”, na colonização e na criação de novos conceitos que funcionam como ferramentas de alienação. Romper com essas imagens canônicas que buscam eternizar quais são as histórias de vida e as histórias de morte é papel de qualquer pessoa que se diga antirracista e antifascista. Deste modo, é necessário reconhecer os mecanismos de opressão que as imagens carregam. 

A história de triunfo que conhecemos possui gênero, raça e classe social bem delimitados. Compreendemos por meio das imagens quais são as narrativas de mundo que se sobressaem. Um exemplo disso é a Coluna de Trajano[3], finalizada em 114 d.C. Trata-se de um monumento de 30 metros de altura, composto por 25 blocos de mármore e 3,50 metros de espessura. Foi feito por um artista conhecido como “Mestre das conquistas de Trajano”, que esculpiu em baixo-relevo a guerra na visão dos romanos e o genocídio dos Dácios. A coluna estava posta em praça pública e sua finalidade era demonstrar a supremacia do governo romano de Trajano  para educar seu povo sobre o poder bélico e cultural de seu governo. Para além disso, as imagens de corpos mutilados servem ontem e hoje como uma demonstração de força e de cólera contra atos de insurgência. Caso você decida ir até Roma, pode observar que o monumento continua firme e forte, como a narrativa dos vencedores. 

Acredito no papel pedagógico das imagens, sejam elas feitas para legitimar um determinado comportamento ou para questionar premissas rasas que deveriam ser  tomadas como superficiais, mas que dado os limites da contemporaneidade, tornam-se tarefas hercúleas.  Com o auxílio da mídia e das redes sociais, as imagens, principalmente as fotográficas, ganham destaque como fontes de informação. Para além disso, elas legitimam e naturalizam histórias de horror, como as contadas na Coluna de Trajano. 

Após ver o homem que furtivamente cuspiu na rua, abri meu instagram e me deparei com a fotografia de George Floyd sendo assassinado. Essa imagem repetiu-se como ondas em minhas redes e revirou meu estômago. Não era novidade que em sua maioria as imagens eram compartilhadas por pessoas brancas. Tanto Butler, quanto Susan Sontag[4] alertavam sobre o efeito das imagens de horror sobre as pessoas. Essas imagens de tortura estão presentes em nosso cotidiano em todas as mídias sociais e são consumidas como forma de lazer, seja no deslocamento do feed ou no filme de ação norte-americano. Sontag faz o apelo de que diante a imagem que mostra a dor dos outros[5] deveríamos ter o pensamento ético de compreender e travar uma luta contra as opressões, sejam elas guerras declaradas ou violências silenciosas que devastam populações lentamente. Contudo, a função dessas imagens, para Sontag, é de amortecimento, de transformar a dor em algo mais tolerável. 

Butler vai além em sua análise, pois acredita que as imagens de horror despertam algo de sádico, quando as pessoas não só gostam de ver fotografias e vídeos com sofrimento do outro, como preferem fotografar o ato de violência do que interferir imediatamente. Essas imagens de horror podem legitimar a agressão, seja disseminando na internet sem se preocupar com a recepção ou endossando os discursos. 

Butler comenta sobre a preocupação dos dirigentes americanos diante das imagens de tortura causadas pelos soldados americanos em Abu Ghraib[6]. Para Donald Rumsfeld, ex-secretário de defesa Norte-Americano, a publicação de imagens de tortura, humilhação e estupro poderiam interferir na construção da identidade americana, podendo perder o engajamento da população em relação à guerra. Sabemos que as imagens foram divulgadas e que por mais que houvesse uma comoção contra a guerra, essa não conseguia ser maior que as falas fascistas que justificaram e incentivaram tais atos de submissão. 

As falas de Sontag e de Butler fazem eco no Brasil. Entendo que a proliferação de imagens de extrema violência, principalmente contra grupos subalternizados, acontece de forma irrefletida. Não se pode esquecer que essas pessoas possuem a imagem violada a cada compartilhamento em redes sociais, seja ele feito em forma de denúncia ou por sadismo. A divulgação irresponsável surge como tentativa de mostrar empatia, de que um compartilhamento colabora de modo satisfatório com a luta do oprimido e assim, libertando a pessoa que divulga da responsabilidade de uma ação efetiva contra a opressão. A despreocupação com a recepção e os efeitos causados pelas imagens, invalidam qualquer boa intenção que possa conter a disseminação de imagens. 

A recepção dessas imagens de violência pode ser lidas de modos específicos, dentre os quais posso descrever quatro. 

O primeiro grupo é formado por pessoas que sentem repulsa pelo ato de violência ali retratado, pois através da experiência ou do exercício de imaginação, conseguem entender a dor do outro. Para tanto, essas pessoas buscam dialogar sobre o conteúdo da imagem, procurando ações práticas e efetivas para que o ódio focalizado não continue acontecendo. 

O segundo grupo são pessoas que observam as imagens, incomodam-se com a violência, mas não o suficiente para destinar tempo para ações efetivas. A única opção viável para esse grupo é o compartilhamento para mostrar ao mundo que se solidariza e que por isso denuncia o ato, para que outra pessoa assuma a responsabilidade de realizar algo prático. Como exemplo posso citar uma massa considerável de políticos que repudiam atos racistas nas redes sociais, mas que optam por não pautar essa questão, decidindo excluir uma ação antirracista como se não fosse responsabilidade de todos.  

O terceiro grupo é o das pessoas que observam as imagens e regozijam-se com o sofrimento alheio, inventando falsas premissas para justificar a cena que se vê. Esse tipo de pessoa é lida e identifica-se com pautas racistas e fascistas. São adeptos de práticas, símbolos e da propaganda fascista. Um exemplo são as práticas dos presidente do Brasil e de seus fiéis seguidores, que diante a morte por covid-19 de quase vinte mil pessoas, resolve propagar um vídeo do passeio de jet ski. 

O quarto tipo é composto por pessoas que observam as imagens de violência e que de algum modo são apáticas. Esse tipo de pessoa costuma banalizar a morte, transformar a vida em um mundo de futilidades, demonstrando insensibilidade aos limites da própria vida. Essas pessoas são pessoas comuns, que se encaixam nas descrições de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal. Para a filósofa, o mal está presente no cotidiano e não é algo indescritível. Ela baseia-se na figura de Adolf Eichmann, que foi a julgamento em 1961 sobre as atrocidades cometidas no período nazista. Eichmann era responsável pelo transporte de judeus até os campos nazistas. Arendt[7] comenta que o problema não é a existência de Eichmann, mas a constatação que muitas outras pessoas eram iguais a ele, não eram sádicas e definiam-se como obedientes ao Estado. Para mim, esse tipo é constituído por pessoas oportunistas, que não se posicionam diante de cenas polêmicas em um debate público por receio de ter o seu status social modificado. Essas pessoas são como parasitas, que trocam de opinião quando são pressionadas. 

Posso dividir as ações possíveis em duas partes: as ações que buscam a redução de danos e as ações que pensam em um futuro comum. 

As ações de redução de danos são aquelas em que possuem como objetivo minimizar os mecanismos que intensificam a precariedade da vida. A distribuição de renda, taxação de grandes fortunas e políticas públicas que favoreçam a vida e não a morte podem ser adotadas a nível institucional.

Para aqueles que acham efetivo sair de casa, compensa unir-se a grupos e ir em passeatas e manifestações. Para os pesquisadores e intelectuais, independente da área de atuação é imprescindível não colocar o próprio ego na frente de outras pessoas pertencentes a grupos subalternizados, parar de atrapalhar, parar de ofuscar, abster-se de ocupar todos os espaços. É preciso aprender sobre a história não contada no Brasil, sobre o racismo e todas as violências praticadas em grupos subalternizados. Como a intelectualidade diz gostar do diálogo, compensa estar na linha de frente divulgando e visibilizando o trabalho dessas pessoas, além de se dar o papel de aprender a dialogar, de esgotar todas as possibilidades para que essas pessoas não se sintam confiantes em disseminar discursos de ódio. 

Para o grupo que gostam de um ativismo on-line, vale derrubar hashtag com caráter racista e fascista, questionar os governantes e ser o elo entre as outras lutas para articular a visibilidade em temas imprescindíveis para a democracia.  Contudo, não basta ficar apenas no ativismo virtual. É preciso que a sua prática na rede seja condizente com a da vida fora dela.

Vocês devem estar se perguntando o que fazer então diante as imagens. Uma saída viável para utilizar os efeitos pedagógicos da imagem é aprender e ensinar a ler as imagens. Nesse caso, a legenda e o contexto são essenciais para a interpretação e para a formulação de novos conceitos. Contudo, não garantem um entendimento que engaje a população a não compactuar com os três últimos grupos de pessoas. Vilém Flusser[8] nos deixa um alerta sobre as imagens de nossa época, sobretudo as fotografias. Para ele, as pessoas sabem fotografar, criam e compartilham imagens com facilidade. Porém, não sabem interpretar sua própria criação. Já tivemos tantas imagens ensinando a importância do uso de máscaras que é cansativo questionar a compreensão dessas pessoas que na primeira oportunidade as retiram. É inevitável não aproximar a atitude do homem que expurga de si o que lhe incomoda com o clique na opção de compartilhamento de imagens de horror. Como conseguem fazer isso? 

É imprescindível que ao utilizar a internet um maior número de pessoas  estejam cientes das discussões acerca da imagem e sobre seus efeitos na sociedade. Isto é, não compartilhar imagens de pessoas negras sendo humilhadas, torturadas ou mortas. É preciso pensar em novas formas de representação. Questionar as imagens que  reforçam o estereótipo subalternizado de algumas populações. Não podemos correr o risco de naturalizar a violência, mas educar para que as pessoas consigam ler, questionar e formular novos conceitos. Educar na mesma velocidade que se produzem e compartilham imagens. Talvez essas imagens possam ser também utilizadas como mapas para ler o mundo e a partir disso conseguir modificá-lo. Por fim, não devemos deixar de pensar em atitudes éticas, que questionem e sejam reflexivas sobre o compartilhamento de informações. 

Essas atitudes não solucionam o problema, mas chamam para si a responsabilidade da disseminação de imagens que colocam a vida dos outros em risco, porque é essencial deixar de reafirmar os mecanismos do opressor por meio das imagens.

Sobre as ações que constroem um futuro em comum, é urgente questionar as categorias ocidentais de humanidade, tal como a afeição dos homens brancos pela guerra e como consequência da frustração a violência. Para além disso, a possibilidade de um futuro em que as vidas não sejam precárias só pode acontecer quando as estruturas políticas e de dominação forem questionadas, abrindo espaço para repensar novas formas de vida em que a natureza e as pessoas convivam de forma harmônica sem uma atitude colonial e  predatória. 

NOTAS

[1] (1979, p. 319).
[2](2018, p. 32).
[3](MOZZATI, 2012, p. 64).
[4](2004, p. 31).
[5](SONTAG, 2003, p. 15).
[6](BUTLER, 2018, p. 111).
[7](ARENDT, 1999, p. 269).
[8](1998, p. 91).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: ou quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. 

FLUSSER, Vilém. Ensaio sobre a fotografia: Para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio d‘água editores, 1998.

MOZZATI, Luca. Roma. Reconstrução virtual de lugares e movimentos. Milão: Mondadori Electa,  2012. 

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das letras, 2003. 

WEIL, Simone. A Ilíada ou o poema da força. In: A condição operária e outros estudos sobre a opressão. Org. Ecléa Bosi, tradução de Therezinha G. G. Langlada, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

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