O céu pintado em azul e vermelho

Texto publicado no site Ogbe Ogun Egbe Axé Eko

Em um futuro não tão distante, Awakú caminha na cidade em busca da humanidade. O céu mostra-se em um azul sem nuvens. Nas ruas sobraram carros e concreto,  não se vê uma única pessoa, um bicho ou redemoinho para suspender a poeira no ar. 

No silêncio propício, Awakú compreende o que aconteceu. Há tempos que os orixás viam as errâncias dos mortais. É tolice das pessoas acharem que  ludibriam as divindades. Orixá está na eternidade e por isso passeia facilmente entre passado, presente e futuro. Orixá em essência aproxima-se do instante de tal modo que podemos senti-lo, seja no piscar dos olhos, no aperto no peito, na respiração oscilante e no contratempo da cantiga que toca no xirê. 

Os humanos são conhecidos por usarem um certo jeitinho, um pequeno desdobro. Com o tempo alguns aprendem e tentam estar em equilíbrio com o mundo. Mas isso não foi o suficiente para impedir que causassem toda a destruição. 

Awakú é testemunha da ignorância humana. Costuma definir a humanidade como pessoas que pensam ser deuses quando veem cifrões e quando tomam distância da terra e de outros seres vivos. Awakú acha graça, pois quando cumpre a predição de seu nome, não existe montanha de concreto que a impeça de chegar. O significado de seu nome é “venha morte” para lembrar aos seres que são perecíveis. Isso não quer dizer que a erê não goste de gente, pelo contrário, ela gosta o suficiente para querer compreendê-los.  

Awakú é forma leve de orixá Nàánàá, que em dança com Ogun dá sentido à vida. Se todas as pessoas vem da lama de Nàánàá, no movimento de Ogun surge a temporalidade da vida, o bailar da continuidade, a possibilidade do seguinte, do depois, da construção da narrativa. Assim, ninguém entende a morte como Awakú. Nos primórdios, diziam que Nàánàá moldou os corpos com o barro para que houvessem as pessoas, pediu que ao fim da vida, os corpos fossem devolvidos para ela e assim voltariam a ser lama. 

Com o passar das gerações, defender as pessoas tornou-se tarefa cada vez mais difícil para Awakú e por isso ela rasgou o espaço/tempo para observar o futuro da humanidade. Há tempos que Awakú percebe as tentativas dos humanos de negociar a mortalidade às custas da precariedade da existência de outros seres. A vida por si só já é linha tênue e quebradiça. Criar categorias para tornar algumas vidas mais dignas e merecedoras de serem vividas do que outras, é a maior besteira. No fim todo mundo volta para as terras lamacentas de Nàánàá. Mas acelerar o retorno é provocar um desequilíbrio. É fissurar a terra, sobrecarregar as transformações. Por isso Awakú não ficou surpresa quando encontrou um futuro deserto. Atenta a um fragmento do passado humano, a erê procura pelos sinais da história. 

De repente, Awakú foi desperta de seus pensamentos por um rastro de fogo que cortou o céu. Sem perder a linha vermelha de vista, a erê corre para alcançar o ponto que o vestígio de fogo toca o chão. 

No fim da trilha que percorreu o céu, o ar quente empurra a bola de fogo no asfalto que derrete tudo ao redor, chamuscando os pedacinhos de piche. Fogaréu, a erê, assim como Oyá, pintou o céu de vermelho cortando-o com um raio cintilante. Ligeira, repousou no buraco e abriu um sorriso de quem encontrou o que procurava: “Aham, te achei! Por que você não volta para o instante em que as pessoas sentem os orixá?”. 

Awakú dá de ombros e emburrada, suspira: “Veja Fogaréu,  as ruínas provam que aquilo que eles chamam de humanidade não está dando muito certo”. 

Quando Awakú correu atrás do vento de fogo no céu, ainda tinha esperança que fosse um vislumbre dos humanos, uma imagem ilusória da realidade que pudesse acalmar-lhe com uma mentira: que no final, mesmo com a disputa fixada pela humanidade contra os seres, algo tinha sobrevivido. Não esperava encontrar Fogaréu.

Era demais admitir que o mundo assim estava. Nenhuma floresta, sem sinais de pântanos, rios, folhas e bichos. Sem terra molhada para reciclar a vida.

O futuro ali presenciado era de estagnação, um certo vazio que existe entre a vida e a morte. A pausa no tempo humano para contemplar a sua completa inexistência.

“Awakú, está na hora, vamos voltar!” disse Fogaréu. A paisagem vista naquele momento era a certeza de que tudo teria um fim. O que viria depois?  

Awakú queria ver gente, ver árvore e brincar com as crianças que ainda não fazem parte do que denomina-se humanidade. Queria um futuro de gente, de xirê e família. Não fugia de um abraço apertado ou brincar na água e tomar chá com paçoca. Virou-se para Fogaréu e assentiu. 

Awakú observa pela última vez aquele vazio de um tempo sem perspectivas. Com um sorriso de canto, a erê retira do pequeno bolso da saia uma barra de chocolate. Divide ao meio e entrega a Fogaréu, que satisfeita, com uma mão recebe o doce e com a outra segura firme Awakú. Erê sabe compartilhar e tem por hábito contemplar cada pedacinho do universo. Por mais que a vida de orixá esteja em um tempo diferente do corpo que se degenera, a partilha é energia para garantir a estabilidade de um mundo bom. As erês riem e visitam o futuro, pois sabem que a insensibilidade humana perde a pose quando vê orisá. 

“Vamos fogaréu? Ainda quero tomar aquela xícara de chá”. 

Na cidade em um futuro muito próximo, surge um vento forte, que como um raio deixa para trás os resquícios de uma realidade que não pertence a ninguém. 

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