Quando tinha uma pessoa favorita no mundo

Ao revisitar meus slides do curso de Filosofia da Fotografia, foi inevitável pensar na vovozinha. Primeiro porque a foto que geralmente utilizo no final da primeira aula é a que estou em seus braços, pronta para dar um escândalo. Quem vê a imagem não imagina a nossa cumplicidade. Uma foto de gerações, em que eu, ela e ao fundo na fotografia da parede a mãe e o pai dela foram eternizados na imagem. Pendurada na porta ainda existe uma miniatura de gaiola, revelando o passatempo do meu falecido avô. O assunto da fotografia é a relação entre eu e vovozinha. Agradeço a intenção de quem capturou a cena e me fez retornar ao kairós desse tempo, permitindo que hoje, meses depois de sua morte, ainda consiga me emocionar com uma imagem. Não sei a idade exata que ela tinha quando morreu, nem a idade que tinha quando nasci. Para mim ela sempre foi a vovozinha, a dos abraços fofos e do cheiro de derby em meio ao amaciante barato.
Passávamos horas conversando, na verdade fofocando, fuxicando sobre a vida alheia, em um jogo imaginativo de bate e volta, para ver quem era a melhor no improviso da invenção. Já que não tinha idade para ajudá-la com as roupas no varal, preparava um copinho com água, um banquinho e sentava-me na beira do tanque. Éramos melhores amigas, falávamos das vizinhas, de trivialidades e sobre os romances de seus filhos. Eu, uma pequena adulta, falava com destreza tudo o que pensava e vivia emburrada se não me levassem aos finais-de-semana na casa da velha.
Vovozinha era fujona, escondia-se toda vez que o mascate batia no portão para cobrar as bugigangas que ela comprava e não pagava, me colocava para inventar histórias e desculpas no portão e sempre praguejava o vendedor. Nunca senti dó do mascate, principalmente por causa dos brinquedos quebrados que ele vendia e que eu fingia serem perfeitos para não chatear a vovozinha. Já ouvi histórias de que certo dia ela correu com um pedaço de pau atrás de um moleque que ousou tentar furtar os seus pertences, sua preciosa máquina de costura. Todos sabiam que eu era a neta favorita e saiam dezenas de anedotas da nossa relação, como quando nasci e só abri os olhos quando ela chegou pra me conhecer.
Depois de seus inúmeros derrames e dos meus anos de adulta, ela contava uma história, mentia descaradamente e riamos dos outros, pois eu sabia que era impossível ficar chateada com ela. Lembro do dia que questionei o que ela estava almoçando e ela imponente me disse que era peixe, só que na marmita tinham pedaços de costela de boi. Ela sabia que não podia comer nada gorduroso, mas entendi que dificilmente conseguiria resistir a uma costela assada. Quando chegamos ao ponto que ela não conseguia mais falar, usava uma caneta qualquer e uma tira de papel para desenhar seus desejos em formatos de palitinhos, sempre representando cigarros e coca-cola.
Quando se é criança temos dessas manias de realmente considerar as pessoas como únicas, de privilegiar o momento e saber, mesmo sem entender, a finitude do ser. Por isso creio que as crianças cultivam o amor pelas pequenas coisas. Conceição, a única vovozinha, não só me ensinou a ter boa oratória e um extenso vocabulário de xingamentos, mas me mostrou o que era ter amor incondicional. Ela chorou quando me viu de cabelos cacheados e sempre me dizia que eu era linda. Se eu soubesse que ela gostava tanto dos meus cachos, tinha deixado de lado os alisantes e mantido o cabelo natural por mais tempo só pra sentir ela pegando em minha cabeça. Vovozinha era a minha pessoa favorita no mundo.
Certa época fiquei sabendo que ela passou a não distinguir as pessoas e que sua saúde estava precária. Não tive coragem de testemunhar a veracidade disso. Temi que seus olhos não mais me reconhecessem. Não quis arriscar, seria doloroso demais e não fui vê-la. Quando ela faleceu, não fui ao hospital nem ao seu enterro. Era demais entender que minha única pessoa favorita estava deixando esse mundo e unindo-se a outra realidade que não alcanço. Toda vez que olho nossas fotos posso sentir seu cheiro único. Às vezes quando estou triste ou com saudades ela vem em sonho pra me mostrar que seu colo fofo nunca deixou de existir.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s