“As ordens no paraíso”: o que vem depois do humano?

Quando vi a exposição “As ordens no paraíso – o animal e o humano”[1] (2020) da artista Alice Lara[2] senti um incômodo com as imagens que eram exibidas. Essas imagens me tocaram como um punctum[3] barthesiano, como um ferrão de uma abelha que lateja e não sabemos onde ele está. Não era a primeira vez que tinha visto as pinturas da artista, mas lembro que inicialmente suas pinturas me causaram curiosidade e fascínio, não o sentimento de incômodo. Em “As ordens no paraíso” Alice problematiza as relações entre humanos e animais e a espetacularização dos zoológicos. Por meio de transparências dos vidros do zoológico, Alice aborda as contradições dessa relação. Hoje, dois meses depois, entendo o que senti no início de fevereiro ao ir na exposição. Depois da reflexão ocasionada pelo isolamento e da crise do covid-19, o ferrão que havia sido enfiado em mim mostrou-se e pude ver a ferida.

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Alice Lara. “Menina, ariranha e bolsa de gatinho”. acrílico e óleo sobre tela, 100 cm x 100 cm, 2019. Créditos da imagem: Jamila Maria.

Susan Sontag[4] nos revela quando foi desestabilizada por uma foto. Segundo a filósofa, as imagens possuem o poder de nos partir ao meio, de causar uma fissura, uma fenda na carne, de modo que nossas vidas são divididas em duas partes: uma antes da imagem e uma depois. Esse poder que as imagens possuem de afetar o seu espectador perpassam pelo enquadramento e pela intencionalidade. Qual era a intencionalidade das obras de Alice Lara ao utilizar enquadramentos que colocam os humanos e animais cercados por grades e em alguns momentos de metamorfoses do animal humano?

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Alice Lara. “Bebê olhando”. 45 x 70 cm. Acrílica, encáustica e óleo sobre tela. 2020. Créditos da imagem: Jamila Maria.

Não é novidade que temos uma relação desequilibrada com o que chamamos de Terra e com os animais. O sentimento de superioridade, instigado pela noção de racionalidade do “penso, logo existo”[5], propagada pela sede desenvolvimentista da modernidade fizeram com que por meio da linguagem[6] definíssemos uma hierarquia epistêmica do que é a humanidade e do que são os outros. A partir disso compreendemos as diferenças entre homens e mulheres, humanos e animais, sociedade e natureza, ocidente e oriente, civilização e barbárie. Essa divisão, mais do que artificial, é utilizada como justificativa para um projeto de dominação e exploração do outro, do que é tido como categorias inferiores. Nessa lógica binária, a Terra e os animais estão a disposição para servir e/ou serem apropriados. Quando sentimos uma desordem, por vezes causadas pela própria ação da humanidade e por seus sistemas predatórios de civilização, percebe-se o alarme do combate e de extermínio. A ironia é que combatemos a consequência e não a causa da anomalia, progredindo rumo a exaustão do que chamamos de vida em prol do sistema financeiro.

Porém, como exterminar um vírus que faz parte da própria natureza e que em harmonia não é nocivo? Como combater mulheres, bárbaros e todos os corpos que são dissidentes do que não é compreendido pela lógica racionalista moderna?

Na minha infância morei em uma casa com quintal, onde tínhamos vários cachorros. Certo dia, minha família decidiu que iriam concretar o chão do quintal para facilitar a limpeza. Décadas depois me questiono se ao livrarmos da terra e de seus elementos chegaremos em um ambiente estéril ideal para a sobrevivência.

Aproveitei o período para ler os ensaios dos pensadores das áreas de humanas para entender qual seria o papel da arte e da filosofia no meio de uma crise sanitária causada pela ideia de civilização. Li incontáveis textos, dentre eles o “Coronavírus e a luta de classes”[7] e alguns ensaios do “Sopa de Wuhan”[8] (que já se apresenta com um título infeliz) que eram em sua maioria textos de homens estrangeiros, todos com um viés eurocêntrico, com discursos descolados da realidade, em que a crise só é grave por ter atingido a Europa de modo inigualável. Entendi que o que enfrentávamos no Brasil era algo grande, ao observar que os europeus surpreendentemente descobriram a própria mortalidade.

Nunca irei esquecer do historiador que insistiu em dizer que os vírus tornaram-se agravantes e mortais com o ebola na África. Dizer que o desequilíbrio ambiental iniciou-se na África é demonstrar o desconhecimento da própria história do ocidente, das crises sanitárias vividas pela Europa e como o continente africano vem sendo explorado pelos europeus há séculos. Atribuir a culpa ao continente africano é estratégia colonial de não assumir seu próprio poder destrutivo. Nunca esquecendo dos corpos negros exibidos nos zoológicos da Bélgica em 1958. A justificativa vinha com base nas diferenças de racionalidade e na utopia da modernidade de possuir o desconhecido e torná-lo passível dos desejos dos senhores.

Nunca entenderei os filósofos contemporâneos que afirmaram que o covid-19 evidenciou o racismo, o elitismo e a xenofobia, que em sua concepção, eram assuntos resolvidos há décadas. Dizer que “estamos juntos” ou que “estamos no mesmo barco” é demonstrar a cisão entre realidades distantes e descolar a teoria da prática. As pinturas de Alice nos demonstram a certeza de que não estamos juntos e que na arca que chamam de vida ou de humanidade nem todos os animais humanos são bem-vindos.

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Alice Lara. “Kibon poder ser outro”, 10x15cm. Acrílica, encáustica e óleo sobre tela. 2020. Créditos da imagem: Jamila Maria.

Proliferaram-se ensaios oportunistas buscando mostrar como o capitalismo está em xeque e que agora é o momento ideal para resgatar antigos modelos políticos que não nos apresentam uma saída real para o problema. Ignorar as características do neoliberalismo e a sua capacidade de transmutação, aquela que consome até a última terra e desossa o último osso, é não ter contato com o sadismo desse sistema.

Diante dos ensaios com perspectivas colonizadoras, que serviam apenas para pensar um Estados Unidos da América e uma Europa como parâmetros universais para qualquer sofrimento e logo ações possíveis, questionei-me por que estava lendo aqueles escritos. E principalmente, qual o sentido das pessoas traduzirem, compartilharem e idolatrarem textos que são descolados da nossa realidade e que não propõe nenhuma saída eficaz para a crise, que destrua ou que pelo menos fissure o binarismo realizado desde a modernidade.

Por esse motivo voltei para as obras da Alice Lara do mesmo modo que a personagem principal do conto “O Búfalo”[9] de Clarice Lispector vai até o zoológico em busca do sentimento de ódio para apaziguar um fim de relacionamento. Meu rompimento era com o cientificismo europeu, não em uma tentativa de negar a ciência, mas de negar os seus sistemas excludentes predatórios, que extraem da Terra e de todos os seres a força vital para alimentar o desejo que monetiza nossa existência.

Olhei para as pinturas de Alice e me senti como um animal que rasga as barreiras da própria humanidade. Prendemos os animais pelo motivo dúbio, de preservação da existência contra a nossa própria humanidade. Isolamos os animais de seu habitat natural para que não sejam extintos e/ou comercializados. Nos isolamos em casa com a esperança de que a doença não chegue, mesmo quando já estamos doentes com falta da terra. Doentes de concreto, de poluição, da era digital da cegueira política e econômica. Visitamos esses animais no zoológico pela sensação do outro que é exótico, que foi dominado e passa a vida dependente. Somos atraídos para observar as jaulas porque nos vemos nos olhos deles e no fundo sentimos vergonha de nossa própria humanidade.

Pensei na cidade com muros invisíveis que é Brasília, que segundo Clarice[10], não entende como é sufocante a inexistência de pessoas. Como uma cidade planejada, com uma quantidade pequena de habitantes e que faz um esforço homérico para dar bom dia ao vizinho no corredor, concentra a maior quantidade de casos de covid-19? Retornei para as imagens da Alice em busca do ódio pela humanidade e de como utilizamos da linguagem para criar categorias do que é passível de domesticação. O que senti ao ver suas imagens foi vergonha.

Em busca de soluções para o momento atual e de como a filosofia e a arte poderiam atuar em conjunto, encontrei nas obras de Alice Lara o desconforto de estar viva e entender o que as pinturas despertaram em mim. De fato, como um punctum, essas pinturas abriram uma fenda necessária. Como um remédio para as doenças que temos na contemporaneidade, encontrei consolo para a inquietação nos escritos de Ailton Krenak em “Ideias para adiar o fim do mundo”[11]. Ailton diz que precisamos escutar a Terra, entender o que os rios e os animais dizem. Não se trata apenas de conversar com pedras, plantas e rios, mas de considerar a natureza como um ser que possui vida e que precisa ser respeitada. Entender que acima dos lucros e dos mercados financeiros deve estar a própria noção da vida em todos os seus estágios e suas manifestações.

Não existe grande dificuldade com a linguagem e parece-me que as barreiras foram impostas pelo que conhecemos como humanidade, por meio de escritos, congressos e pactos com intenções universalizantes. Nos falta treino e coragem para retirarmos o que nos foi imposto com o tempo e que não nos pertence. Precisamos ter o ímpeto de valorizarmos nossos artistas, cientistas e pensadores que podem melhor dialogar sobre os problemas que enfrentamos. Necessitamos de humildade para dialogar sobre os desastres que provocamos na natureza e às outras pessoas. Não interferir na voz do subalterno[12] e escutarmos atentos ao que os povos originários e povos de outras matrizes que não a eurocêntrica ou estadunidense tem a falar sobre o que estamos vivendo. Mais do que isso tudo, nos é tarefa urgente repensar sobre modos de vida, não com soluções conciliatórias ou com remodelações dos processos de exploração mascarados sob o termo sustentabilidade, mas modos de vida que considerem o sonho genuíno de continuidade da própria existência. Enquanto não tivermos o básico para poder dialogar com a Terra, ela continuará recolhendo o que lhe pertence.

Notas:

[1] A exposição “ As ordens no paraíso – o animal e o humano” da artista Alice Lara aconteceu no espaço Referência Galeria de Arte em Brasília.
[2] Para conferir o trabalho da artista, acesse www.alicelara.com.br.
[3] Conceito desenvolvido por Roland Barthes em “A câmera clara”.
[4] SONTAG, Susan. “Sobre fotografia”. São Paulo: Companhia das letras, 2004.
[5] Raciocínio realizado por René Descartes na obra “Discurso do método”.
[6] Aqui a dimensão da linguagem utilizada é de BERGER, John. Por que olhar os animais?, in: “O olhar”. Barcelona: Editora GG, 1980.
[7] HARVEY, D, et al. “Coronavírus e a luta de classes”. Terra sem amos: Brasil, 2020.
[8] AGAMBEN, et al. “Sopa de Wuahn”. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020.
[9] LISPECTOR, C. O Búfalo, in: “Laços de família”. Rio de Janeiro: Rocco, 1960.
[10] Na crônica “Nos primeiros começos de Brasília” (1970) Clarice Lispector diz que Brasília é “uma prisão ao ar livre”.
[11] KRENAK, A. “Ideias para adiar o fim do mundo”. São Paulo: Companhia das letras, 2019.
[12] Aqui elenca-se a ambiguidade da voz do subalterno, que segundo Spivak, são aquelas pessoas que vivem nas camadas mais baixas da sociedade. Para a filósofa, não precisamos falar pelo subalterno e sim criar mecanismos para que sua fala seja ouvida. Cf. SPIVAK, G. C. “Pode o subalterno falar?” Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.

Texto publicado na Revista Ano I Ensaio em 16/03/2020

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