O Brasil não é Bacurau

A película sul-coreana “Parasita” (2019) com direção de Bong Joon-ho nos mostra a transição de gêneros, do terror à comédia, para compor uma potente crítica social. O filme é inundado por imagens metafóricas. Um dos recursos utilizados pelo diretor são as linhas verticais e horizontais que demarcam as famílias, dividindo-as entre ricos e pobres. De um lado os ricos da família Park  e do outro os pobres da família Kim. Os ricos sempre aparecem à frente, enquanto os pobres não ultrapassam os limites impostos pelos mais favorecidos. 

É evidente a metáfora da ascensão, em que a família pobre que vive no subsolo e todos os dias caminha pelas ruas e escadas rumo à mansão construída no alto da colina por um arquiteto modernista famoso. No clímax do filme, a família Kim descobre que existe um homem, companheiro da ex-governanta, que vive no porão da mansão. Os Kim e o casal nominalmente inexpressivo, discutem sobre quem tem o direito de permanecer na mansão, não existindo consenso e consequentemente uma medida drástica é tomada. A entrada da família intermediária, que se projeta entre os Kim e os Park é essencial para compreender o ódio de classe que está presente no filme.

O jogo de luz e sombra, iluminando os ricos e ocultando os pobres, mexe com o imaginário e o desejo de ordem e simplicidade que tanto a classe média gosta. O personagem que vive no subsolo da mansão deixa explícita a satisfação e a vontade pela manutenção da vida que leva, esbanjando admiração pelos Park, caracterizando-os como refinados e elegantes. A família do porão pode ser caracterizada como a classe média, que está entre os pobres e os ricos e força uma identificação e dependência com os ricos, negando sistematicamente uma relação com os mais pobres. Os motivos já estão marcados no imaginário social: o rico é limpo, cheiroso, o pobre é sujo e fede. O próprio alimento dos ricos, bebidas caras e comida saudável, transforma o pêssego em fruta de desejo dos ricos e veneno para os pobres. Neste enquadramento, quem é o parasita? 

A repercussão do filme no Brasil fez com que “Parasita” se mantivesse por quatro meses nas salas de cinema. Não acredito no reconhecimento do status quo por boa parte da população, mas percebi a distorção da metáfora abordada tão cuidadosamente por Bong Joon-ho e a tentativa da classe média e alta em enquadrar a nossa realidade em um sentido chucro do termo parasita. Nessa tentativa, os pobres brasileiros aproveitam-se das políticas do Estado e das inúmeras concessões que políticos ultraliberais ou no antigo libertarismo, costumam alegar contra a insatisfação do povo necessitado. Esse incômodo que assola os mais ricos e seus seguidores, torna-se estopim para políticas de extermínio, a necropolítica definida por Achille Mbembe que explica a existência de um alvo desenhado na população pobre e negra. Faz parte da construção do inimigo comum a descrição do outro por meio de adjetivos pejorativos, como sujo, fedido e pouco racional, formando imagens impassíveis de desejo, criadas por meio do ódio e que na melhor das hipóteses fingem uma compaixão pela destruição causada. 

Depois da última eleição, pode-se dizer que temos dois tipos de relações entre a elite e o povo. De um lado, o parasitismo escrachado da elite para exploração dos mais pobres. É uma relação usada por igrejas que não pagam impostos, que enriquecem pastores e fazem lobby nas bancadas da bala e da bíblia. É a usurpação de cargos públicos que dividem-se na ala dos militares e dos olavistas, sempre em busca do desmantelamento de políticas públicas que garantem o mínimo pra existir: saúde, educação e oxigênio. Queimam as matas, destroem o ecossistema das praias, matam a população negra, indígena, lgbtqi e pobre. Deixam mais de 1 milhão de pessoas esperando na fila do Bolsa Família, pois parasita é quem depende de 170 reais por mês para sustentar uma família de cinco pessoas e não aquele que vai de jatinho passar férias em Miami. Aliás, o parasitismo escrachado utiliza-se de outros parasitas como “boi de piranha”, como o rico que passa anos sugando dinheiro de espectadores que curtiam uma tal banheira, que mesmo depois de morto permanece nas mídias sociais com um “white people problems”. 

Do outro lado, temos um comensalismo, a relação em que ambas as partes buscam colaboração mútua para a existência. Em teoria, ambas as partes tirariam vantagens de modo equivalente. Essa é uma relação estabelecida entre as elites e a classe média que possui como objetivo a manutenção da estrutura social. Contudo, as relações norteadas pelo comensalismo, o famoso “uma mão lava a outra”, não são sustentáveis, pois esse tipo de troca é sensível a uma estrutura vertical que segrega pessoas com base na economia e no estigma social. Difícil acreditar em boas intenções quando a prática da exploração já é intrínseca a quem é favorecido socialmente. Não adianta a elite dar estatuetas e alimentar um povo com migalhas enquanto engole o ódio e o despeito, e na primeira oportunidade grita  “porque me-re-ci”. 

Parasita é quem suga o alimento, quem vive às custas de terceiros e transforma a exploração em mérito. O Brasil, assim como outros países marcados pela colonização e pela escravidão, convive diariamente com o parasitismo e com o falso comensalismo, que dissimulam a boa intenção. Aclamar o filme “Parasita” com um sorriso amarelo só torna mais explícito a dicotomia entre o descomedido e o moderado, evidenciando que o Brasil está longe de ser Bacurau. 

Leituras que entendem superficialmente as relações entre a pobreza e a não pobreza justificam os posicionamentos esdrúxulos de Paulo Guedes que vive envolto de supostos mau entendidos, oscilando em associar o parasitismo aos servidores públicos e empregadas domésticas, para no fim desculpar-se com a queima do Estado parasitário. Para Guedes, o Estado é o parasita quando não consegue arcar com salários de servidores públicos, como se no Brasil não existisse terceiro setor, empresas milionárias e bancos que possuem dívidas perdoáveis. O grande problema são as viagens das empregadas domésticas e dos pesquisadores que enriquecem ganhando 1.500 por mês com dedicação exclusiva. Para o governo e para Paulo Guedes, tudo o que está abaixo é parasita e é indispensável livrar os cofres públicos, o hospedeiro, dessa praga. 

A utilização do termo “parasita” por Paulo Guedes demonstra o entendimento e a relação que a elite e parte da classe média possui com os mais pobres. Para eles, o pobre sempre vai ser o parasita. Contudo, a sagacidade de Bong Joon-ho é inverter essa lógica, criando camadas de dependência entre os personagens. Engana-se quem acredita que a família Park não depende da exploração física e mental das outras famílias. Os parasitas do filme e da vida real são as elites que fingem não ter entendido o filme, muito menos os problemas sociais. 

O Brasil não é Bacurau. Sustentar essa utopia é delírio de quem tem em abundância e não conhece o barro seco. Garantir a relação parasitária das elites é projeto político, moral e social para um país que possui problemas sérios de desigualdade social e elegeu políticos que possuem gosto pela tortura em suas diversas faces. Fingir um comensalismo é projeto político, moral e social de quem não consegue fazer autocrítica e acredita que o perfume francês passa despercebido em meio ao cosplay de pobre. 

No fim, comensalismo e parasitismo no Brasil são faces da mesma moeda.  O que nos resta após “Parasita” é entender quais os limites dessas relações e buscar romper a sofisticada linha que mantém o pobre e periférico como mal necessário.  

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