Uma crítica necessária às representações lgbtqifóbicas do Porta dos Fundos

Desde pequena minha mãe biológica me ensinou que minha liberdade não deve atentar contra a dignidade de outras pessoas. Esse ensinamento me envolveu ao receber a notícia de que os franceses estavam relembrando o massacre de Charlie Hebdo. Contextualizando, Charlie Hebdo é um jornal satírico francês, que em diversas publicações utilizava de imagens racistas, lgbtqifóbicas e intolerante religiosas para fazer chacota com povos muçulmanos, latinos e asiáticos. O ato violento contra o jornal aconteceu em 2015 deixando 17 mortos e ganhou grande visibilidade mundial, gerando uma onda de solidariedade nomeada que ganhou o mundo por meio dos dizeres “je suis Charlie” como símbolo de luta pela liberdade de expressão.

Nunca fui “Je suis Charlie”. Não compactuo com atos de violência e justamente por prezar pela vida humana, não consigo vestir a face do jornal francês. Ao entender a utilização de imagens por países Imperialistas como Estados Unidos, Inglaterra e França percebo a massificação e a banalização das imagens, seja de forma grotesca em sátiras de jornais ou por meio de recursos imagéticos que insinuam terrorismo e violência, que criam pânico, medo e horror na população, endossando preconceitos que legitimem políticas segregacionistas, que encobrem o epistemicídio – entendido como a destruição dos saberes de culturas não européias – da diferença e que sufoca e mata pessoas silenciosamente.

Judith Butler em sua obra “Quadros de guerra” (2009), explica que países imperialistas utilizam de imagens para a criação de um inimigo em comum. As imagens polarizam os povos entre bons e ruins e criam o falso paradoxo de que uma vida só pode existir em detrimento da destruição da outra. Para que essas imagens, cheias de violência sejam naturalizadas, clamam pela liberdade de expressão. Liberdade de agredir o outro que desconheço, de fazer graça com sua cultura, com sua religião e seu fenótipo.  Butler nos relata a viralização das imagens de tortura no Afeganistão e da prisão de Guantánamo, em que os prisioneiros de origem árabe eram obrigados a estuprar outros prisioneiros. Um dos prisioneiros escreve poesias que dizem “Nos violentam dizendo buscar a paz”. Essa é a face da contradição brutal que as imagens nos mostram e que muitos não querem ver.

Recentemente os dizeres “Je suis” ganharam força no Brasil, para defender um grupo de humoristas. Primeiro ressalto a necessidade de compreender que por mais que exista uma crescente onda fascista e conservadora no país, ainda é preciso analisar e criticar todo tipo de produção intelectual, independente do teor ideológico. Segundo, não é novidade que grupos bem intencionados de homens brancos de classe média alta cometem excessos e equívocos, agredindo a dignidade de determinada parcela da população.

A película “Especial de Natal” do grupo humorístico Porta dos fundos veio recebendo críticas de grupos religiosos cristãos e a situação agravou-se ao terem sua sede parcialmente incendiada por ação de um integralista. Nos primeiros minutos de episódio me senti enojada e quis vomitar. Na obra é utilizada a tática do amortecimento da violência, que insere situações degradantes e violentas aos poucos, para que o espectador consiga digerir e não abandone o filme nos primeiros minutos de constrangimento. O enredo gira em torno do aniversário de 30 anos de Jesus, que após passar meses no deserto, chega com seu amante em casa e descobre que lhe fizeram uma festa surpresa. De início, Jesus tenta esconder o amante afeminado, ocultando-o, empurrando-o para fora de casa, cristalizando uma imagem do que é viver dentro do armário para muitos lgbtqi.  Após a tentativa fracassada de negação da existência do amante, uma das convidadas questiona Jesus, se seu amigo é “bicha” e em seguida diz que o antigo amigo – provavelmente um amante anterior – era negro. Salienta-se que para demonstrar que o ex-amante era negro, a convidada esfrega a mão sobre o braço, indicando haver um problema em relação à cor, um recurso humorístico racista, que se repete em outras cenas da película. Até esse momento não se tinham passado 15 minutos e o programa já se demonstrava homofóbico e racista. Além disso, todas as mulheres representadas pelo programa compartilham o estigma de loucas, pecadoras ou putas. Existe ainda uma insinuação de que Deus tinha estuprado Maria na concepção de Jesus.

Voltando para a questão da homofobia, em nenhum momento Jesus se assume gay e sempre aparece uma tensão polarizada com seu amante. Aliás, o gay assumido e afeminado é o amante, que aos olhos de Jesus assume uma postura desagradável. No fim do filme, o amante se revela como Lúcifer, a grande tentação e mal que precisa ser destruído. Jesus, que antes da revelação mostrava-se como um personagem sensível, transforma-se em alguém impiedoso que precisa virilmente salvar a honra da família e exterminar Lúcifer, pois o mesmo havia mentido que o amava.  Jesus afirma que é um Deus e que está vivo em todas as pessoas. Deste modo, penetraria em Lúcifer contra sua vontade. Jesus então explode Lúcifer, o gay afeminado, de dentro pra fora e como palavra de alívio e ordem, Jesus grita: “vai tomar no cu”, como uma lição aos gays afeminados, uma reivindicação de que o pecado, o escatológico e o mal precisam ser extintos.

Espero que outras irmãs mais qualificadas que eu escrevam sobre a revelação de Jesus e as cenas racistas de representar Jah, a única divindade negra,  como um maconheiro, que sente fome e que não diz coisas relevantes. Neste texto, ressalto apenas a ânsia da violência contra os povos lgbti+, a utilização de uma linguagem vulgar, que tantos especialistas analisam como indicativas de violência sexual, da misoginia e da intolerância religiosa que há tanto tempo o grupo Porta dos fundos pratica.

No Brasil, a liberdade de expressão é amparada por lei, é um princípio constitucional, mas não é um princípio absoluto, pois existem limites. Quando a linguagem fere a dignidade humana de um indivíduo ou de uma coletividade, ser retirado do ar não é um caso de censura e patrulhamento ideológico e sim uma responsabilização pelo excesso de expressão. Segundo a intelectual e pesquisadora tatiana nascimento, em minúsculo mesmo,  alguns grupos de pessoas brancas, heteronormativas e elitistas, blindam seus trabalhos intelectuais e artísticos embasados em uma falsa luta pelo direito de povos minorizados.  É uma estratégia retórica alegar sofrer homofobia e intolerância, quando se trata de homens cisgêneros, brancos e heterossexuais. Entendo que não é dever de indivíduos progressistas defender ou se unir à grupos que tratam da polarização e de temas centrais aos direitos humanos com sarcasmo e irresponsabilidade. No caso do Porta dos fundos, o “Especial de Natal” foi retirado do ar pela justiça com uma justificativa incompleta, sem considerar todos os reais problemas do episódio. Infelizmente o grupo ainda não foi autuado pelo racismo religioso que pratica desde o ano de 2019 em vídeos menores, como os intitulados “Omolu”, “Ogum” e “Amarelo”, em que a orixá Iemajá é representada como uma mulher negra que diz que irá “chupar o pau” de um cara branco porque ele passou a virada de ano de vermelho.

Todo discurso de ódio deve ser combatido e responsabilizado, independente do discurso ideológico e do posicionamento do grupo.

 A população negra, lgbtqi+ e grupos religiosos, lutam por respeito e dignidade, pois em seu dia-a-dia estão acostumados com a violência estatal, com o racismo que possibilita o genocídio do povo negro, da transfobia que violenta e filma pessoas de gênero e sexualidades dissidentes serem mortas. Como ver graça em orixás sendo representados estando sempre a serviço de gente branca de classe média alta? É um sadismo elitista rir da fé alheia dessa maneira. Esse tipo de humor feito por gente rica que vive em seus condomínios como semi-deuses inatingíveis.

Não precisamos de falsos mártires para pensar na responsabilidade da criação de conteúdo. Entendo que parte dos cristãos não tenham percebido a violência que relatei no episódio, muito menos o que é praticado pelo grupo contra os povos de terreiro. Talvez os cristãos não tenham se incomodado com a violência racista e homofóbica que é exposto. O que se sabe é que fazer humor misógino, racista, lgbtqifóbico e intolerante religioso é mainstream e é crime.  Não preciso ser cristã para me incomodar com demonstrações de intolerância com diversas religiões, muito menos para entender que existe algo de sado-masoquista em ser solidário com quem exalta violência sexual. Situações como essas que estamos passando demonstram que precisamos ter empatia, desconfiar de todas as imagens que nos apresentam e exercitar a interpretação de texto.

*A imagem utilizada faz parte de uma campanha pelo orgulho LGBTQI da agência Rethink. O título da obra é “Escudo do orgulho” de 2018.

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